5 de out de 2009

Lula de novo

Lula - Grafite de Yolanda Urrea Os países latino-americanos que já conseguiram romper as ditaduras, não têm tido boas histórias para contar de seus presidentes reeleitos.

O Brasil não é uma exceção: FHC encerrou o seu oitavo ano de presidência com nível sofrível de aprovação popular e não mais conseguiu se reerguer enquanto político, principalmente quando quer se meter, com a falsa propriedade que lhe é peculiar, nos assuntos que não conseguiu resolver.

Lula fez um primeiro mandato com a legitimidade que nenhum outro presidente do Brasil jamais teve; atravessou-o em meio a adversidades que jamais outro enfrentou; reelegeu-se em circunstâncias mais propícias que a sua primeira eleição, o que o torna um fenômeno eleitoral nas democracias do mundo.

Em função disto reúne as condições políticas para romper a regra do primeiro parágrafo deste texto, e ser a exceção que guindaria a sua biografia ao lugar que ele deve lutar por merecer na história do Brasil.

Quando FHC iniciou o seu segundo tempo, o Brasil vivia uma crise financeira, em parte, afirmam alguns analistas ácidos desta época, devido ao grande esforço que a república dos tucanos fez para financiar a própria reeleição do príncipe.

Lula assume o segundo mandato com a economia brasileira sólida: o seu governo, destarte as críticas contextuais à política econômica, tem o crédito de ter feito um excelente trabalho neste campo.

O discurso de Lula tem agora o tom de alavancar o desenvolvimento atendendo as peculiaridades regionais, coisa pífia em seu primeiro mandato, devido exatamente às restrições que a busca da solidez econômica impunha.

Lula sabe que precisa tanger o Brasil a um crescimento mais significativo, para que seja este o seu diferencial e o seu legado: ele tem consciência do que deve ao povo brasileiro, que o legitimou de novo, de forma incontestável, apesar de todos as tentativas de despejá-lo do Alvorada.

Lula é ciente de suas conquistas. Sabe que o mundo o considera um político notável: construiu a maior federação trabalhista da América Latina e montou um partido de esquerda do nada.

Foi o torneiro mecânico que saiu da fábrica para ser o Presidente de uma das maiores democracias do mundo, em umas das maiores economias do mundo.

Isto o obriga a pensar, neste segundo mandato, além dos meros horizontes do cotidiano administrativo.

Não adianta o preconceito usar o argumento  da impropriedade intelectual para torcer o nariz para Lula: ele é extremamente perspicaz e sabe que para combater a pobreza são necessários empregos e crescimento.

Sabe que é necessário investir para crescer. Sabe que este crescimento não pode ser obtido, de forma sólida, sem a condução disciplinada da economia. Portanto, não se espere mudanças radicais na política econômica.

Segundo ele mesmo, não mais delegará o comando político para terceiros: será ele o condutor do seu governo.

Isto é índice de que as alianças necessárias à governabilidade serão elaboradas pessoalmente, portanto mais produtivas e confiáveis na medida em que ele será o avalista dos seus próprios acordos.

É claro que estes acordos tendem a ser a grande dificuldade do Presidente.

O Congresso Nacional, por via de conseqüência do sistema eleitoral, é extremamente fragmentado, o que torna as coalizões meramente eventuais e algumas vezes pouco republicanas, mas, Lula adquiriu a expertise no trato destas dificuldades: já sabe o que pode e o que deve fazer, ou melhor, o que não pode e o que não deve fazer.

O seu maior legado, todavia, já está sendo devidamente escrito: a consolidação definitiva da democracia no Brasil, a ser consumada com a Reforma Política que há de vir.

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