27 de ago de 2007

Carta a J. Passarinho



Posse na ABM em 1994

No segundo turno das eleições para o governo do Pará, em 1994, era clara a derrota que seria imposta por Almir Gabriel, a Jarbas Passarinho.
Mais de 100 prefeitos acompanharam o então Senador Passarinho no 1o turno.
Na primeira semana do segundo turno, com as pesquisas indicando a vitória certa de Almir Gabriel, Passarinho perdeu 90% dos prefeitos.
Eu, então prefeito de Tucuruí, permaneci-lhe fiel e, ao ver a revoada, escrevi-lhe a carta mais abaixo.
Dois dias depois ele a respondeu com uma atitude carinhosa: convidou-me para um almoço na casa do seu sobrinho, então Deputado Estadual Ronaldo Passarinho.
Neste almoço a três, pude notar a resignação de Jarbas Passarinho à derrota que o tiraria da vida política.
Jarbas Passarinho perdeu aquela eleição, mas continuou, e continua sendo, uma das figuras mais respeitadas no cenário da República.
A carta:
Caro Senador,
A dignidade dos homens construiu a base moral da humanidade. Esta base moral, embora um tanto amorfa ultimamente, ainda é um forte cimento do que tem de bom na sociedade.
Tempo houve em que a palavra do homem era suficiente para garantir seu ato no futuro, obrigando inclusive seus descendentes.
Nossos heróis foram todos personagens deste tipo: sacrificaram a própria vida por seus compromissos, que uma vez firmados jamais seriam quebrados, não importavam as dificuldades peculiares à saga que empreendiam.
O homem moderno não mais cuida de ser assim tão cartesiano. Desde Maquiavel, a sobrevivência impôs modos menos extremados de agir para a consecução de um fim.
Talvez a questão consista em se expandir Hobbes: o homem é o lobo do próprio homem, porém, não mais se agrupa em alcatéias.
O homem é um lobo solitário: sua finalidade é ele mesmo.
A democracia suavizou a guerra pelo poder. O que se conseguia antes nos campos de batalha, se consegue hoje pelo voto, embora este mantenha, a seu modo, as mesmas mazelas, surpresas e traições das guerras.
A crueldade do processo eleitoral não difere muito do que é a guerra pura.
Todo aquele que se propõe a ser candidato deve sempre ter em mente os versos de Augusto dos Anjos: “Acostuma-te à lama que te espera, o homem que nesta terra miserável, mora entre feras, sente a inevitável necessidade de também ser fera.”
Algo, porém que não acontecia naqueles tempos é comum hoje: um soldado jamais passava para o outro lado do front pelo fato de este estar perdendo a batalha, pelo contrário, lutava com mais ardor e a isto se devia, muitas vezes, vitórias inesperadas.
O meu coração jamais se conformará com a atitude daqueles que abandonam o navio no meio do mar, devido à tormenta: ou o levo a porto seguro, ou afundo com ele.
Admito até que se troque de embarcação depois de atracá-la ao cais, mas deixá-la à deriva jamais.
Muitos lhe prestaram apoio quando de sua candidatura ao governo do Pará. Poucos trabalharam para efetivar este apoio.
A maioria, como as birutas dos aeroportos, virou caçador de ventos: foi mudando de posição conforme a brisa das pesquisas de opinião.
Mais uma vez, parafraseando Augusto dos Anjos, o beijo era a véspera do escarro: mãos que ainda ontem lhe afagavam hoje lhe apedrejam, e aqueles que resolveram ser menos explícitos, estão com elas convenientemente atadas.
Tristes exemplos, principalmente quando partem de homens públicos. As vitórias e as derrotas seriam mais belas e honradas se não houvesse essa dança de vampiros.
Asseguro-lhe minha solidariedade e meu trabalho até o fim com a mesma posição que assumi no início. Nada me fará mudar de lado ou cruzar os braços.
Vamos em frente. Não se alquebre por coisa alguma. Seja o guerreiro que sempre mereceu a admiração dos brasileiros.
Vencido ou vencedor nesta batalha, o senhor sempre terá o respeito dos paraenses e dos brasileiros.

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