13 de ago de 2007

Professor Roberto Santos

Roberto Santos é economista e foi um dos fundadores do extinto IDESP.

Entrevista concedida à jornalista Simone Romero, publicada em O Liberal, no dia 12.08.2007, no caderno Poder.

▪ Na década de 1980 o senhor publicou o que, até hoje, faz parte da bibliografia básica para se entender o processo de desenvolvimento da Amazônia. Esse livro é o 'História Econômica da Amazônia'. Se o senhor fosse escrever uma segunda parte desse livro, incluindo os fatos recentes ocorridos na economia amazônica, o que destacaria?

Com certeza eu não escreveria mais aquele livro do jeito que ele foi escrito na época, e sim um outro livro, destacando novas realidades. Os fatos a que eu daria maior importância não seriam mais aqueles a que dei importância em 'História Econômica da Amazônia', porque a Amazônia mudou e está mudando muito. As alterações climáticas e suas conseqüências na forma como o mundo vê atualmente a região seria um ponto importante a ser levantado dentro dessa nova perspectiva histórica. As mudanças no clima interferem e vão interferir ainda mais na forma como a economia se desenvolverá na região. Principalmente no que diz respeito a novas práticas de desenvolvimento. Um outro ponto novo que eu destacaria é a sociedade amazônica. O homem amazônico mudou, então qualquer livro que venha ser escrito nesse sentido precisa abranger a mudança fantástica ocorrida com a incorporação das preocupações ambientais e com as alterações sociais que atravessamos.

▪ Que mudanças são essas que o senhor enxerga na sociedade Amazônica? De que forma mudamos?

▪ Identifico uma sociedade envolvida em novas tentativas de desenvolvimento, em busca de novos caminhos para o crescimento e envolvida também com novos empreendimentos, mesmo que o que se tenha conseguido até agora ainda seja muito pouco. Por exemplo, é uma sociedade que se dedicou à busca de novos empreendimentos econômicos em setores como o florestal e o mineral. Essa realidade é bem diferente daquela na ocasião em que eu escrevei aquele livro. Hoje temos uma Amazônia mais amadurecida, que busca tratar de si mesma, nem sempre com muito sucesso, mas pelo menos de uma forma diferente. Por exemplo, é verdadeiro que a Amazônia mudou com o avanço nos investimentos no setor mineral. Há uma nova indústria nascendo. Isso representa uma grande mudança para a Amazônia. Espero que isso represente também uma grande mudança para a economia amazônica. Com relação à questão dos royalties, é possível ver que os municípios têm avançado um pouco nas suas tentativas de desenvolvimento. Não estão paralisados como estavam outrora, na velha Amazônia. Você vê Marabá e outros municípios empreendendo e tentando coisas novas. Isso significa que obtivemos um sucesso relativo no avanço econômico da Amazônia Oriental.

▪ O pesquisador Samuel Benchimol, já falecido, tinha uma tese em que afirmava que se os países desenvolvidos queriam conservar a Amazônia, deveriam remunerar o Brasil por esse serviço ambiental. O senhor, que conheceu bem o professor Benchimol, acredita que o mercado de créditos de carbono é, de certa forma, uma resposta positiva a essa tese?

Eu achava e acho essa tese do Samuel Benchimol muito bem formulada. Genialmente formulada como, aliás, eram todas a coisas que o Samuel Benchimol fazia. De uma forma geral, a idéia era de que uma parte dos países, especialmente os mais ricos, deveria contribuir para a criação de um fundo para ser aplicado no desenvolvimento econômico dos países mais pobres. Ainda acredito que isso é uma grande idéia, mas não tenho visto muita coisa nesse sentido sendo implementada no mundo. Os créditos de carbono talvez apontem nesse caminho, mas não tenho uma análise mais profunda sobre esse assunto.

▪ A história da indústria paraense pode ser descrita como uma sucessão de ciclos. Na década de 1960 tínhamos um parque industrial consolidado que, no entanto, entrou em decadência por não conseguir se modernizar e fazer frente aos produtos vindos de outras regiões mais industrializadas. Nas últimas décadas, no entanto, esse segmento voltou a se aquecer. Teremos mais sorte dessa vez?

Acho que sim, inclusive porque a maneira como essa indústria está se implantando é totalmente distinta daquela que se consolidou no passado. Temos aqui uma indústria já bastante autônoma, prometendo grandes realizações. Atenta ao que acontece no mundo e buscando novos mercados a atualização tecnológica. Isso é totalmente o inverso do que existia aqui na década de 1960.

▪ E enquanto as cidades de urbanizam e o Estado vive um ciclo de modernidade, no meio rural as relações de trabalho ainda, em muitos casos, continuam a ser servis....

Em parte isso ocorre por causa do fenômeno que socialmente norteou a rede de desenvolvimento rural na Amazônia, que era a rede do 'aviamento'. Foi essa rede que historicamente sustentou a existência de uma sociedade rural. Por exemplo, no período da borracha, o aviamento era a forma corrente de relação de trabalho. Ainda existe muito aviamento no Acre e em algumas zonas do interior do Pará. Agora, o que está havendo de mais novo e mais terrível aqui na nossa região é a resistência de focos de escravidão. Não só a escravidão efetiva, mas a escravidão disfarçada que atinge famílias provenientes de outras regiões, principalmente do Nordeste, que vêm para o Pará e aqui se estabelecem empregadas em um sistema de falso aviamento.

▪ Por outro lado, um fenômeno também observado no Estado é o aquecimento das economias municipais e, como conseqüência, o surgimento ou a consolidação de movimentos separatistas. Qual a sua opinião sobre a possibilidade de divisão do Estado?

Não há dúvida de que essa tese do separatismo está posta e que determinados segmentos da população lutam dentro das frentes para que a redivisão territorial se concretize. Do ponto de vista econômico acredito que há viabilidade para a criação de novos estados. Pessoalmente, porém, eu não desejo que isso aconteça. Acho que sentirei saudades do Pará como ele era.

▪ Fazendo um exercício de futurologia, como estará o Pará daqui há 20 anos?

Desde que o Herman Kahn (conhecido futurólogo norte-americano) desapareceu do cenário eu não pego em estudos de futurologia. Mas, veja, podemos fazer algumas tentativas. Por exemplo, você pode ir analisando os fatos que estão acontecendo para prever os que vão acontecer, e esse era o método de futurologia que nós mais usávamos. Então vamos analisar o que está acontecendo no Pará. O Estado vive um momento de expansão da atividade minerária e, ainda, um meio rural que se moderniza com o avanço da agroindústria e com a obtenção de maior produtividade no campo. A partir desses pontos podemos prever que o Estado viverá um avanços notável na sua economia que não exigirá 20 anos. Talvez isso ocorra até num futuro mais próximo. Isso implicará um aumento da mão-de-obra no setor industrial e um aumento da mão-de-obra rural. Eu sempre fui um otimista. Para mim, o pior raciocínio é o guiado pela pessimismo. Acho que o Estado vai caminhando bem, e caminhará melhor.

▪ E quanto à atual produção intelectual paraense. O senhor acha que estamos em uma boa safra?

Sem querer cair novamente naquela de otimismo, eu acho que a Universidade Federal do Pará trouxe uma grande contribuição para a atividade intelectual da região nesses seus 50 anos. Realizou o que tinha para realizar. Quem viveu, como eu, a universidade no tempo, não digo nem da sua criação, no tempo anterior à sua criação, quando criar uma universidade na Amazônia era um sonho absurdo, sabe que os avanços foram muitos. E hoje, passados apenas 50 anos, vemos uma universidade vibrante. Acho isso notável.

▪ Não são poucos os que consideram o Direito Ambiental como um grande entrave ao desenvolvimento da Amazônia. O senhor tem uma série de estudos sobre Direito Ambiental. Como o senhor vê essa polêmica?

O Direito Ambiental surgiu batendo a cabeça, tendo que dar cotovelada nos outros, para poder abrir seu próprio caminho e poder respirar um pouco melhor. E isso continua acontecendo até hoje com o Direito Ambiental e com o ambientalismo de uma forma geral porque os que resistem ao Direito Ambiental são os mesmos que resistem ao ambientalismo. Tivemos uma grande vitória com a Constituição de 1988, quando surgiu a definição do Direito Ambiental, considerado um direito de toda a sociedade.

▪ O senhor agora será homenageado pelo governo do Estado, com seu nome no novo Idesp. Como vê o retorno da instituição?

Fui um dos fundadores do Idesp. O governo me homenageou colocando meu nome no Idesp. Achei um pouco injusto, pois havia outras pessoas que trabalharam tanto quanto eu para a criação do instituto, como o Roberto Barbosa Oliveira e o Amilcar Tupiassu. Mas também não recusarei a homenagem. Minha expectativa em relação ao novo Idesp é favorável. O Idesp passou por uma fase ruim e foi baseado nisso que o Almir Gabriel acabou com o instituto. Agora, ao ser retomado, acredito que a instituição entrará em uma nova fase, não só boa para ela como para o planejamento do Estado.

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