12 de fev de 2007

As luzes da cidade

camelos[1]

Victor Hugo, em "O Corcunda de Notredame", conta que os subterrâneos da Paris de sua época, eram morada de trabalhadores sem teto, imigrantes sem sorte, mendigos, aleijados, charlatões e tudo o mais que a sociedade humana produziu fora dos padrões estóicos da república idealizada por Platão.

Belém está cada vez mais se parecendo com os subterrâneos de Paris, como narrados no romance de Victor Hugo: só que aqui a obra se escreve nas calçadas.

Não se pode mais andar pelas calçadas de Belém. Os ambulantes tomam conta de tudo, por falta de ação da prefeitura em organizar o espaço urbano, com uma solução que não lhes tire a condição de trabalho.

Há ainda a disputa de espaço e de moedas pelos peculiares flanelinhas: há pontos em que se acumulam mais flanelinhas do que carros.

Em cada esquina ou sinal de Belém há um mendigo a serpentear temerariamente no meio dos carros que param: tem até pedinte com ajudante de ordens, que se apossam das esquinas mais movimentadas, e se fazem proprietários delas.

Ao final do dia de trabalho, não é raro ver veículos particulares, alguns até bastante caros para a atividade, recolhendo os pedintes ou os vendedores das esquinas.

De vez em quando aparecem as vendas de medalhas bentas: para-se no sinal e o vendedor apressa-se em oferecer uma, atestando que a mesma acaba de receber as bênçãos divinas através do seu representante na terra, e aquilo só custa um real.

Um dia deixei de comprar uma e fiquei com a leve impressão, por uns cinco minutos, que Deus ia me castigar.

Tem também os malabaristas de todo o gênero: outro dia eu apreciei uma luta de facões árabes, com direito a faíscas e tudo: dei um real.

Quando o número é aquele que um sobe no cangote do outro para rodopiar bolas pelo ar, eu prefiro dar um real ao que agüentou o peso do malabarista nos ombros.

Como fazer caridade custa dinheiro, eu tenho um limite diário: R$5.00.

Mas não é só plagiando Victor Hugo que vive Belém: Machado de Assis se inspirou por aqui para escrever O Alienista.

Loucos de todo o gênero perambulam pela cidade.

Outro dia eu descia a Riachuelo e de repente vi a minha frente alguém dobrando a esquina, correndo, um volante de carro na mão.

Ele avançou, girando o volante como o faria um motorista. Parou entre eu e o carro da frente. Fez um movimento com a mão como a colocar a alavanca de câmbio em ponto morto.

Observei que as suas costas havia uma placa de carro pendurada. Quando o carro da frente avançou ele engatou uma primeira no ar, voltou a mão ao volante e arrancou.

A platéia ria animada. A tragédia, afinal, nada mais é que uma comédia nua.

No final da rua, em uma parede com milhares de propagandas sobre os mais diversos gêneros, sobressaia-se um outdoor com a foto de um rapaz de cabeça raspada e todo sujo. A escola que ele estudou patrocinou a peça, dizendo que ele houvera passado em primeiro lugar no vestibular: em Belém, eu já vi até convite para missa de sétimo dia, em outdoor.

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